29 de out de 2012

Tássia Campos em noite de som e fúria na Mostra SESC Guajajara de Artes

 


Inaugurado este ano, o Teatro Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy) tornou-se palco para o show glamoroso da cantora Tássia Campos, durante a programação da VII Mostra SESC Guajajara de Artes, na noite de sábado (27). Acompanhada dos músicos, Edinho Bastos (guitarra), Jesiel Bives (teclado), João Paulo (baixo) e Moisés Mota (bateria) e DJ Franklin (programação eletrônica), a cantora apresentou um repertório de canções dos seus últimos shows em tributo aos Novos Baianos e Sérgio Sampaio, bem como algumas canções inéditas que estarão no seu primeiro disco.



Após uma sequência de música brasileira e mundial saída das pick-ups do DJ Franklin, ela entrou desafiadora, sem saudar o público, cantando em inglês, com voz rouca e encorpada, experimentando sonoridades em dub e arranjos que misturavam o som eletrônico do DJ com a base jazzística dos músicos. O visual do palco nos transportava para o melhor das casas noturnas de jazz, com luz soturna que dava textura ao clima noir pela fumaça que saía do gelo seco junto com o veludo da cortina vermelha atrás dos músicos. De vestido longo e flor na cabeça, Tássia lembrava o visual de cantoras como Billie Holiday e Ella Fitzgerald, talvez uma homenagem ali explícita, como ícones musicais.



As canções do repertório escolhido por Tássia pareciam ir traduzindo a persona da própria cantora, que nos últimos dias se envolveu em discursos polêmicos com outros músicos nas redes sociais e que tem assumido uma postura opinativa sobre a música feita pelos artistas maranhenses e sobre aquilo que lhe representa, nem sempre em tom de delicadeza.



E toda essa perspectiva ariana, de quem gosta de comprar briga, acaba se tornando o impulso criativo para seu trabalho como cantora, da artista que se fortalece no conflito, seja pessoal, seja nas relações com seus pares.



Nos versos de A menina dança (Novos Baianos), está lá o nariz arrebitado da menina que entra no jogo e não leva desaforo pra casa quando tudo está virado; nos versos de Que Loucura (Sérgio Sampaio), está a figura que ficou maluco da ideia guiando o carro na contramão, até chegar a se revelar em composição autoral, Persona non grata parceria dela com Celso Borges, quando cantou os versos “Eu disse quase tudo, eu quase não disse nada, disso que sou feito, nem leite, nem nata, persona non grata. Esse é o meu futuro, o ouro de que acumulo. O verbo puro, o salto por cima do muro”.



Durante o show, a palavra poética ganhou força na performance da cantora, que em determinado saiu do palco e deixou apenas a voz mixada com as incursões eletrônicas do DJ Franklin para dizer: “só vou deixar meu coração, a alma do meu corpo, para quem pode. (...) eu não tô à toa, eu sou muito boa”.



A certeza de si como intérprete ficou evidente nas releituras de canções com registros marcantes, como Is This Love (Bob Marley), A Rã (João Donato) e Summertime (George Gerswin), como também no registro dela para Intervalo (André Lucap), que estava na plateia e pra quem ela disse ter roubado a música pra si, e Logradouro (kléber Albuquerque), com a qual ganhou o prêmio de artista revelação da Rádio Universidade FM.

Tássia dedicou a canção Punk da Periferia (Gilberto Gil) para o mestre Leonardo, do Bumba-meu-boi da Liberdade, com quem conviveu de perto e a quem tratava como avô a quem nutria um carinho especial e admiração pela opção e missa de vida em prol da cultura popular.



Ao final, cantou com vigor e volúpia a canção Pacto com Baco (Eugênio Dale), celebrando o prazer dionisíaco e subvertendo a ordem estabelecida pela lei seca de não consumir bebida alcoólica, pra fazer o que lhe dá vontade, no palco e fora dele também.



Foi um show envolvente, moderno e visualmente bonito. Tássia Campos mostrou que, de São Luís, pode-se também estar conectados com o que há de mais contemporâneo na música produzida no Brasil, representada por outras cantoras semelhantes na intenção estética, como Céu, Cibelle, Nina Becker, entre outras.verbo puro, o salto por cima do muro".  leite, nem nata, persona non grata.



A programação da VII Mostra SESC Guajajara de Artes segue até o dia 1° de novembro.


Texto: Alberto Jr. (Ascom Mostra Sesc Guajajara de Artes)
Fotos: Taciano Brito