27 de out de 2013

Diversidade da música étnica marca abertura da 8ª Aldeia Sesc

Mais de 8 grupos artísticos saíram em Cortejo até a Praça Nauro Machado. Show de abertura do evento teve a participação do grupo Pedra Branca, de São Paulo.


A batida forte dos tambores do maracatu anunciava o começo da festa. Faunos romanos e ninfas gregas espalharam-se por entre as pessoas. Brincantes de grupos afros ensaiavam coreografias. Palhaços, malabaristas e dançarinos iam despertando sorrisos e olhares curiosos. Uma carroça fantástica atravessa a entrada do prédio do Sesc, na Praça Deodoro, trazendo a pequena atriz Violeta Amorim, 5 anos, representando a lendária personagem Ana Jansen. Funcionários do Sesc, artistas e promotores de cultura se juntaram ao grupo e formaram um grande cortejo que saiu pelas ruas do Centro de São Luís convidado a todos para a abertura da 8ª Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

Quem passava pelo local não resistia à alegria do grupo e se juntava à festa, empolgados com os batuques e danças. Durante a passagem do cortejo, surgiam comentários. “Quanto tempo não se via uma carruagem andando pelas ruas. Voltei no tempo”, comentou a cabelereira Rita de Cássia.

A rotina da movimentada Rua Grande, principal centro comercial da cidade, foi sendo alterada com a passagem do cortejo. Funcionários de lojas, consumidores, transeuntes e moradores dos prédios iam parando para ver o movimento. Alguns até deixaram antecipadamente o expediente. “Todo ano a gente já sabe que o cortejo vai passar. Eu acho tudo bonito. Dá uma alegria. Não dá pra ficar dentro da loja. A gente para tudo e às vezes até sai um pouco mais cedo do trabalho”, disse a comerciária Gleiciane Mota.

O Cortejo Artístico foi conduzido pelos grupos Maratuque Upaon-Açu, Coletivo de Artes Urbanas, Núcleo de Formação Attivitá, Núcleo Atmosfera, Grupo Cara de Arte, Tambor de Crioula do Sesc e o Bloco Afro GDAM. O trajeto encerrou na Praça Nauro Machado, onde os brincantes do grupo Bumba-meu-boi Unidos de Santa Fé já aguardavam para apresentar o exuberante brilho de suas indumentárias e ritmos.

 
 
   
 (Cortejo de Abertura)

Shows performáticos

Adornado de keffiyeh (lenço palestino) improvisado, o DJ Jorge Choairy abriu os trabalhos da noite com repertório que desterritorializou os ouvintes mais atentos para as possibilidades de fusões culturais que a música pode proporcionar. Baião de Luiz Gonzaga cantado em japonês por Keiko Ikuta, a batida tecnobrega de Gaby Amarantos, o canto experimental da islandesa Björk, o som antropofágico dos Mutantes foram preparando a trilha sonora para Aldeia Sesc que, no tema deste ano, privilegia as expressões híbridas, a mistura de linguagens artísticas.

(Dj Jorge Choairy/MA)

Às 20h subiu ao palco o Coletivo Gororoba, formado pelos músicos Camila Boullosa (percussão, vocal), Rodrigo Sencial (violão), Beto Pio (saxofone, vocal), Cris Campos (voz), Hugo César (contrabaixo), Franklin Nazarus (bateria). Ao fundo, uma tela exibia imagens e vídeos programados pela fotógrafa Carolina Libério.

Cada música ia costurando a trama de uma história brasileira: o viajante Pedro Malasartes, com seus sonhos, necessidades, desejos e luta pela sobrevivência no país dos contrates sociais. “O quê que te alimenta?”. A pergunta foi lançada feito verso pela banda e, aos poucos o público ia saciando seus desejos e vontade de tudo com a música, performance, arte e poesia do Gororoba. No repertório, canções que falavam de cidadania e desigualdade econômica, (“ei, quanto tempo faz que você não olha, irmão, dinheiro? ei, quanto tempo faz que você não é um cidadão? direitos!”, Na Contramão da Maré); a vida de Dona Maria, mulher ribeirinha, sobreviventes do mangue (“a índia deságua no ventre raízes de todo manguezal, silêncios em si, mil anos em mim”, Maria do Pote); a ludicidade de quem preserva o olhar infantil para as coisas (“voa uma pipa no céu, boia garrafa no mar, quem foi cair lá fui eu, na inconstância do olhar”, Pipa), que fez até o pequeno Antônio Torres, de 3 anos, entrar na imaginação e ver pipas no céu da noite de São Luís.


 (Coletivo Gororoba/MA)

 Depois foi a vez da dupla paraense Strobo, formada pelos músicos Léo Charmont e Arthur Kunz, apresentar som instrumental de linguagem pop. O som elétrico da guitarra vai ganhando novas timbragens e recursos eletrônicos. Cada música é resultado de pesquisa de elementos de vários gêneros que se aproximam. Assim, os riffs da guitarra iam do rock ao carimbó, da cumbia ao dance music, sustentados pela bateria e beats eletrônicos. O resultado é uma sonoridade pulsante que situa o ouvinte em várias regiões urbanas, caribenhas e até mesmo virtuais, com músicas que parecem trilhas sonoras de jogos eletrônicos.




(Strobo/PA)

Sonoridade multiétnica

Às 23 horas, um sexteto de músicos com instrumentos inusitados em shows de bandas populares, como o sitar (tipo de guitarra oriental), o alaúde (instrumento de cordas árabe), o didgeridu (espécie de berrante de aborígenes australianos), o teremim (primeiro instrumento eletrônico, inventado em 1920), além de percussões africanas e brasileiras, foram tomando o palco da Praça Nauro Machado para trazer a São Luís a musicalidade das aldeias de outras partes do mundo.


O grupo paulista formado pelos músicos Luciano Sallun, Aquiles Ghirelli, Daniel Puerto Rico, Ana Colomar, Ruy Rascassi e Ricardo Mingardi foi o convidado especial da abertura da 8ª Aldeia Sesc porque sintetiza a proposta temática que norteia a programação do evento: “Multilinguagens e híbridas expressões na contemporaneidade”. Por quase uma hora e meia, a Pedra Branca apresentou um mosaico de composições do mais recente álbum, “Radio Global” de 2011, que demorou dois anos para se concluído.

A convergência de diferentes instrumentos e vertentes musicais situados no amplo campo sonoro da chamada “world music” não confunde o ouvinte. A intenção é deslocar as experiências sonoras de cada pessoa para a música de outras partes do mundo, especialmente a música asiática, africana e oriental.




O show contou também com a participação da bailarina Laíz Latenek em dois momentos. No primeiro, uma performance inspirada em mitologia do Turcomenistão. A história de um sol enterrado que levou vários vestígios de outras civilizações. No figurino, adornos e peças colhidas em viagens que a bailarina fez para lugares como Londres, Bulgária, Índia, entre outros. Num segundo momento, a apresentação de um intenso movimento, a partir de danças das regiões do Oriente Médio e Ásia Meridional, uma performance sensual, que despejava flores e vigor no palco.


(Pedra Branca/SP)

A mistura de linguagens, como a dança, a música e a linguagem visual fazem parte da proposta do grupo buscam proporcionar uma experiência multimidiática em cada show que não se limita somente ao palco. Entre uma música e outra, no meio da praça, alguns artistas de rua entraram no clima e, espontaneamente, resolveram apresentar suas performances pessoais, como um cuspidor de fogo que lançou chamas ao céu e outro que fez uma dança com uso de bolas e malabares.

Quem pode conferir o show, viu um espetáculo de sonoridades globais, já que o grupo se vale do que vem de fora para tocar música brasileira e usa instrumentos nacionais para executar ritmos indianos, jazz e de outros locais do mundo.

A Aldeia Sesc foi formada e a programação segue em frente com mais oito dias de intensas atividades culturais.

8ª Aldeia Sesc

A 8ª Aldeia segue até o dia 1º de novembro, em São Luís. Nas cidades de Itapecuru e Caxias, a programação acontece de 03 a 09 de novembro, com oficinas, espetáculos teatrais e shows. A mostra é gratuita, mas o público pode colaborar com o Programa Mesa Brasil do Sesc, que complementa milhares de refeições de crianças e adolescentes de São Luís e Caxias, doando 1 kg de alimento não-perecível nas bilheterias dos teatros.

O objetivo do evento é difundir a cultura brasileira e o talento da produção local nas mais diversas linguagens, trazendo espetáculos de circulação nacional e promover a formação de plateia. Este ano o evento passou a se chamar Aldeia, que são as mostras de arte e cultura organizadas pelos Departamentos Regionais do Sesc visando fortalecer os laços comunitários de artistas, espectadores e produtores, buscando inovar e diversificar o circuito cultural brasileiro.

Programação completa e mais informações

(98) 3216 3800 / (98) 3216 3886 / (98)88711079



Texto: Alberto Júnior 
Fotos: Daniel Sena e Rosana Barros